quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Clube das Blogueiras Escritoras - O Enterro - Carol Teles


O vento sibilava quando batia nos segmentos escuros das arvores enfileiradas em cima da relva. Nada se ouvia além dele, e nada se queria ouvir. O silencio era aterrorizante e parecia ser um pressagio do que estava por vir.
Com mãos frias enxuguei minhas lágrimas lodosas e infantis. Cruzei as pernas que haviam se arrepiado com o contato frio daquela cadeira gelada que me deram na tentativa de me deixar mais confortável. Conforto. Fazia tempo que uma palavra não parecia tão estranha aos meus pensamentos.
Olhávamos uns para outros pedindo desculpas pelo indesculpável. E se podia entender o estômago de alguns desesperados por comida, e talvez a hora de comer fosse o melhor daquilo tudo.
Porque alguém se dava o desfrute de morrer em pleno inverno?
Ouvi alguém dizer que era a melhor hora para descansar. Contudo no meu ver não é nada confortável descansar com o barulho da chuva a perturbar o sono. Nem com o calor do sol imagino, nunca o senti acalorando minha vida, então não posso falar. É humano e pessoal demais sentir o calor do sol. A melhor hora seria o outono, penso eu, as folhas que caem das árvores poderiam dar um toque delicado para lembrar a quem olha que por mais bonita que seja uma folha, ela um dia vai cair, sempre foi assim, e sempre será. A imortalidade da vida é saber que somos mortais.
Uma menininha brinca mais adiante. Ela não combina com as roupas pretas que a vestem. Entram em atrito com os flocos de neve que começam a cair, e com o vermelho que ainda se mantém em seus lábios. Lembrei-me da Branca de Neve, seus sete anões e o curioso fato de que a tal princesa passa por um estado de catalepsia por conta de uma maça. Que mal pode haver numa maça? Parece sempre atrativa com uma forma impecável de nos seduzir. Foi ela quem um dia tentou Eva, e que perdurará na historia da humanidade como um fruto proibido, que incrivelmente consegue ser delicioso e tão inocente.
Alguém passa a mão na minha cabeça, eu a puxo. Odeio que toquem em mim! Odeio o tato! Foi criado apenas para nos tornar mais sensíveis. Qual a vantagem de ser sensível? Os sensíveis morrem cedo, são humanamente loucos e arriscam a própria vida pela dos outros. É melhor ser louco sem ser humano. A vantagem esta em não precisar dar satisfações, e não ter que salvar a vida de ninguém. Já é difícil demais salvar a própria vida todos os dias.
Noto que as pessoas as meu redor começam a se afastar, porém não antes de ter a doce ação de jogar uma rosa no buraco ao chão. Uma rosa... Que irônico!(Incrível como meu cérebro consegue trabalhar dessa forma doentia). A rosa é a perfeita contradição do amor: Bela e perigosa, como qualquer mulher pode ser.
Aposto como o criador não pensou antes de criar um animal dessa forma. Por isso nossa sociedade é machista assim. Imagine se invés de Adolf Hitler fosse Olga Hitler. Ou se invés de Nero tivéssemos alguém por Alexandra. Talvez Roma não fosse apenas queimada, nem apenas os judeus sacrificados. Poucas são as grandes mulheres da nossa historia, se fossem muitas, não haveria muitos historiadores para narrá-la.
Me vi sozinha.
A neve deu lugar a uma fina garoa. Estava com os lábios ressecados. Puxei um hidratante em forma de batom da bolsa e passei. Um coveiro mais adiante me olhava com uma pá inerte nas mãos. Talvez ele tenha percebido como sou facilmente mutável. Enxuguei meu choro e passei mais blush, não queria me levantar dali pálida daquele jeito.
Olhei para o buraco na minha frente e o caixão da mais cara madeira fechado dentro. Lembrei de tudo o que passei do lado dele e da forma tão trágica como ele deixou o mundo. Um suicídio não nos leva ao céu, dizia o padre na missa todos os domingos. Mais eu tinha certeza de que não era esse caminho que ele tomaria.
Um verme.
Daquele tipo que você enjoa só de olhar seu semblante na fotografia.
Do tipo, que te acorda durante a noite puxando sua camisola depois de deixar o leito do quarto ao lado. A paternidade não era seu forte, nem a humanidade.
O mundo estava dando graças pela sua ausência. E eu? Bom, não me fez diferença. Afinal não se pode sentir quando se tem um algo enegrecido no lugar do coração.
O coveiro não mais me olhava.
E aparentemente ninguém mais restou para deixar a minha despedida ser a mais longa. Que gesto mais amoroso e inútil!
Percebi que não tinha trazido uma rosa para jogar. Tiraria as pétalas se tivesse lembrado, como não lembrei, cuspi!
Ele não merecia nem meu cuspi, mas tinha que deixar alguma lembrança minha dentro do buraco. Talvez o gosto de chiclete da minha boca chamasse mais rápidos a putrefação do seu corpo.
Lembrei que ainda estava com fome e que muitos aperitivos me esperavam na festa pós-morte. Maravilhosa a ideia não é?
Comemorem a incrível vida que nos resta e a morte de alguém, comendo.
Virei de costas e o vento jogou fora meu chapéu e meu cachecol, sorri. Para o vento, para a neve, para a justiça divina, e para a terrena principalmente.
Contudo me lembrarei de deixar a corda um pouco mais longa da próxima vez, só para o sofrimento ser maior, e quem sabe a marca do seu pescoço nunca saia. E acreditem que terá uma próxima vez, porque enquanto caminho afundando meu sapato nessa relva branca, penso no futuro, tão próximo. E se não nos encontramos na próxima vez, então meu caro, nos veremos no inferno.



Carol Teles
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